
O Pequeno Infinito está parado.
O Pequeno Infinito está sob um guarda-chuva.
www.parapluiecolore.blogspot.com

Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.

Tua melancolia me bate à porta como um bêbado ávido para chegar em casa, violento, trôpego, de palavras enroladas e aos gritos.
Tua melancolia me soa como o soprar do vento que entra sorrateiro pela fresta da janela mal fechada, um assobio leve que toca os pêlos dos meus braços.
Tua melancolia é funda, é cheia, é rica. Mas tua melancolia é, antes, triste. É necessária. Mas é triste. É parte de ti. Mas é a parte triste. Que te faz existir feliz. Mas é triste.
Esperei o inverno chegar ao céu. Esperei a chuva cair, brutal. Mas vi o colorido dos guardas-chuva na rua.
Esperei o acorde triste da música. Esperei o lamento do violoncelo. Mas vi a expressão satisfeita da solista.
Não toques, apenas, os dissonantes. Não toques, apenas, os maiores. Toque o que deve ser tocado, o que os dedos o levarem a tocar.
Mas toques vida. A vida que caleja os teus dedos com suas cordas, que dilacera a carne como lâmina afiada. A vida que te fecha as feridas, que suaviza a tua pele. A vida melancólica. A vida flamejante.
Tua melancolia dorme no meu travesseiro, se aconchega no meu lençol. Chora baixinho à noite e acorda adormecida. Permanece. Esvaece-se. Retorna. Luto.
Tua melancolia está comigo. “É” comigo. Sou eu. Somos.
E melancólicos ou não, somos ela.

Que me perdoe quem defende a arquitetura Cefichiana... Procurei arte nas pilastras do CFCH, nos desenhos das escadas, no piso que, ora brilha, ora pára o passo. Procurei arte nos elevadores temperamentais que sobem e descem, e param e caem e não funcionam. Procurei qualquer coisa para admirar ali, mas a pilastra muito saliente pulando para o meio da sala me impediu. E assim me desiludi. Esqueci qualquer possibilidade que houvesse digna de mudar minha impressão. Devo me contentar em existir salas de aula....
Mas me arrependi há cinco horas atrás. Conheço o CFCH diurno, expondo sua imperfeição muito claramente. Conheço o CFCH vespertino, preguiçoso e lento. Conheço o CFCH noturno e seus dentes salientes. Mas nunca estive exatamente às três horas da tarde no corredor do segundo andar. Posso ter passado a qualquer hora da tarde, mas acho que nunca às três. Hoje, eu passei...
O sol que batia na parede de combogós transformara o chão num tapete de bolinhas brilhantes. Eu não via parede, portas, murais e comecei a andar sobre os pontinhos amarelos... Atravessei todo o corredor sem-fim a passos lentos, como que para aproveitar toda aquela sensação nova. Sensações novas devem ser provadas lentamente, mesmo as desagradáveis. Só assim descobre-se o que repetir, o que esquecer.
Provei. Cheguei no final onde não existiam mais bolinhas de luz. Disfarcei para que ninguém fizesse mau juízo de mim, afinal, o que uma pretensa psicóloga - e que grande coisa isto - fazia andando sem parar, de um lado para o outro, no corredor, olhando para o chão? Tendo um surto...
Abri a bolsa, fiz de conta que esquecera alguma coisa do outro lado e voltei, ansiosa para sentir o chão reluzente e sentir minhas pupilas no frêmito de contrair e dilatar. Mas, no meio do caminho, logo depois de uma piscadela que dei, tudo evaporou. O chão estava como sempre fora, como sempre é quando sento nele toda manhã para relaxar: escuro com seus pontinhos pretos normais. Como que uma reação inicialmente inconsciente, parei para esperar que o fenômeno se repetirsse.
Nada aconteceu.
Fui embora me perguntando o que teria sido aquilo tudo. Não sei se uma alucinação da minha cabeça fantasiosa ou se realmente acontecera. E, se acontecera mesmo, duvido que se repita do jeito que aconteceu. Não era o sol brilhando nos combogós do CFCH. Era algo mais e não cabe a mim tentar, em vão, descrever exatamente.
Saí do prédio e não pensei mais em procurar arte ali.
Voltei para casa depois de mais um dia no nada dadaísta CFCH...
Voltei para casa depois de descobrir o realismo fantástico do CFCH...





Querida,
Eu estive pensando: eu não tenho medo de nada neste mundo. Eu já vivi tanta coisa,
que não há nada do que você possa jogar em mim que eu já não tenha ouvido. Acho que
é por isso que não consigo compor como antes. Às vezes, querida, eu só tento
encontrar uma melodia decente ou fazer uma canção que eu possa cantar em minha
própria companhia.
Não consigo parar de pensar nas coisas que você tem me demonstrado. Eu nunca te
achei uma boba, nunca. Mas, querida, olhe para si agora... Você tem que ficar em
pé, conseguir carregar seu próprio peso. Você chorar desse jeito não vai adiantar.
Essas suas lágrimas não irão a lugar algum.
Entenda, você tem que chegar a um acordo consigo mesma e não ficar presa a um
momento sem conseguir sair dele, como está acontecendo. Não cruze seus braços como
está fazendo, não ache que o tempo vai resolver tudo se você nem se move para tentar
sair desse momento que está prendendo seu corpo.
Eu pensei bem e entendi que seria impossível renunciar às cores que você me traz.
Me lembro das noites que você preenchia com fogos de artifício e que, hoje, elas
te abandonaram. Mas essa luz, que antes era trazida por sua alma, me enfeitiça até
agora, mesmo sem existir mais. Eu ouço através dos seus ouvidos e posso ver através
dos seus olhos. Sabe, às vezes acho que você é uma boba mesmo, por se atormentar tanto. Eu sei que
é duro, que quase nunca o que você consegue é o bastante, ou o que é realmente
necessário. Porque o muito para você é pouco, querida. Eu sei o quanto é difícil... Isso tudo eu percebi quando eu estava meio inconsciente, meio adormecido, quando
tudo na minha cabeça ficou claro e quis te escrever. Sentindo o que você é, como é
e a sua intensidade, eu descobri que a água só é morna até que se descubra o quanto
ela é profunda. Você sempre foi profundeza para mim... Tentar enxergar mais de você não é um pulo do meu para o seu mundo, é uma queda
violenta, uma queda rumo ao nada absoluto. Você tem que dar a volta por cima, meu
amor. Você está paralisada num momento e não consegue sair dele... Se a noite se exceder, se o dia não durar, se o nosso caminho estremecesse ao longo
de um caminho de pedras, não se exaspere, meu bem...
É apenas um momento.
E esse tempo passará... Do sempre seu.

(na foto, Gardênia - de escova no cabelo e temporariamente morena - entre o publicitário e o designer. Os outros dois viajavam a trabalho)Gardênia, vulgo Deninha, estava morando na França há seis meses. Foi disposta a estudar temas sobre as representações sociais dos gêneros no cinema, como feminista que era. Mas, desde a sua chegada, não tinha conseguido se concentrar, de tão encantada com sua mais nova e doce convivência européia.
Me chamo Diógenes. Meu melhor amigo é o Cylândio. Moramos no mesmo bairro já faz uns dez anos. Quando cheguei aqui, Cylândio já vivia numa casa simples e de muro baixo. Eu me mudei para uma casa amarela - amarela mesmo - que era rodeada por uma cerquinha de madeira… Amarela.
A mãe do meu grande amigo é linda. Deve ter uns trinta anos, mais ou menos. Já ouvi falar num tal de Balzac, um escritor famoso aí, que fala de mulher de trinta anos. Vou pesquisar na internet para ver se descubro alguma coisa sobre o que esse cara fala porque paciência, paciência mesmo, de ler livro eu não tenho. O pai do meu amigo, e marido da sua linda mãe, é representante de vendas e viaja muito.
Resolvi escrever hoje por um motivo muito sério, um fato que aconteceu comigo há uns dias atrás. Na verdade, eu estou bem orgulhoso do que aconteceu e, ao mesmo tempo, um pouco confuso.
Fui procurar Cylândio na casa dele, terça-feira passada de manhã. Entrei pelo portãozinho que ficava destrancado sempre. Gritei o nome dele uma vez e escutei uma resposta vinda lá dos fundos da casa.
- Entra, Diógenes.
Eu escutava um barulho de água e fui seguindo até lá, no quintal. Quando cheguei, vi Dona Gerlaine no tanque, lavando roupas. Ela estava com um shortinho daqueles que só se usa em casa de tão pequeno e depravado e uma camiseta branca. Aqueles cabelos cacheados curtinhos e saltitantes e sua pele angelical de tão branca contrastavam perfeitamente bem com aquela cena doméstica. Fiquei ali, parado, olhando para Dona Gerlaine, maravilhado. Ver os músculos do braço dela contraíndo-se no vaivém da roupa esfregada contra o tanque me excitou, um tipo de excitação que só tinha sentido quando, uma vez, vi uma mulher pelada na revista do Mago, um amigo nosso, e ela nem era tão bonita assim.Ela não tirou os olhos da roupa e começou a falar:
- Oi, Diógenes. Se estiver procurando o Cylândio, ele não está. Foi para a casa da avó. Só volta de noite.
Agradeci, mas eu não consegui me mover para ir embora. Me mantive ali, apreciando o espetáculo de pernas bem torneadas e fortes que eram ainda mais atrativas quando Dona Gerlaine ficava na ponta dos pés para um apoio melhor na labuta da lavagem das roupas. Ela era um pouco baixinha para a altura o tanque. E esse era um elemento importantíssimo na composição daquela cena.
Percebendo a minha inquietação dentro da minha imobilidade momentânea, Dona Gerlaine parou o movimento das mãos, olhou para mim e disse:
- Bem, Diógenes, só porque o Cylândio não está, não significa que você não possa me fazer um pouco de companhia...
Disse isso com um olhar que, até então, eu desconhecia de Dona Gerlaine. Na hora, sob o impacto de um medo repentino e estranho, inventei que precisava fazer umas coisas
Foi na hora de pendurar as roupas no varal que não contive minha ereção. A camisa branca (e transparente) da Dona Gerlaine estava encharcada de água e, quando ela levantava os braços para alcançar o varal - bendito seja ele – eu conseguia ver, num instante de segundo, aqueles peitos incríveis. Disfarçava com as mãos o efeito que aquela visão causava ao que estava sob meu calção folgado e fino, daqueles que os jogadores usam numa partida de futebol.
Ela já havia percebido, tenho certeza, e como se não bastasse, me pediu uma “mãozinha” para alcançar o varal.
- Você colocou os pregos muito altos, Dizinho. Venha aqui me levantar para eu alcançar melhor.
Bandida! Por que ela não me pediu um banco ou que eu mesmo fizesse o serviço? Só sei que, bandida ou não, fiz o que me pediu sem pestanejar. Segurei na sua cintura fina, por trás, e a suspendi. Depois de um tempo fazendo isso, comecei a apertá-la contra o meu corpo e laçar sua cintura com o braço todo, já que o apoio era melhor – ou, pelo menos, essa foi minha grande desculpa.
Depois de acabada a grande odisséia no quintal, ela disse que me faria um suco. Fomos até a cozinha e comecei a ajudar Dona Gerlaine a cortar um abacaxi. Eu, muito inexperiente nessa tarefa – eu nunca faço nada em casa porque tenho uma mãe que me faz todas as vontades – acabei cortando meu dedo médio, que sangrava muito. Na mesma hora, ela me pegou pelo braço e me levou ao quarto para fazer um curativo.
- Sente aí, Dizinho - disse ela apontando para a cama de casal.
Sentei enquanto ela procurava a caixinha de remédios. Depois, agachou-se na minha frente e pegou minha mão. Já sangrava menos o meu corte quando ela pegou meu dedo e levou-o junto à sua boca.
- Deixe-me dar um beijinho para sarar...
Encostou os lábios no meu dedo bem ternamente, o que me causou algumas reações fisiológicas. Quando percebi, ela passava a língua nele enquanto me olhava fixamente. Fiquei anestesiado por completo quando todo o meu dedo médio estava dentro da sua boca molhada. Só eu sei que sensação foi aquela. Arregalei os olhos e ela me deixou pegar nos seus peitos. Revirei os olhos por uns longos segundos até que ela quebrou o silêncio:
- Tá bom, menino. Você já está melhor. Agora, vá pra casa.
Levantou-se como se nada tivesse acontecido e foi para a sala, assistir televisão. Passei por ela sem saber o que falar e escutei:
- Quando Cylândio chegar, digo que você procurou por ele.
- Sim, senhora. Obrigado.
Naquela noite, tive os sonhos mais incríveis que uma pessoa pode ter.
Menos Cylândio...
Conheci Alberto quando eu tinha 9 anos e ele 7. Ele morava na casa ao lado e tinha o olhar mais safado que eu já vira. Agora que me dou conta disso... Alberto era a prova viva dos pressupostos freudianos sobre sexualidade infantil.
- Estou com dor de amor, doutora.
Depois desse dia do médico, continuei a freqüentar a casa dos Lima, mas nunca mais as coisas foram as mesmas. Alberto aproveitava todos os segundos em que ficávamos sozinhos. Certa vez, quando Vanessa estava doente e fui visitá-la, ele me chamou no final do corredor que dava para o quarto deles. Fui, receosa, mas fui. Betinho me puxou para junto dele e, quando menos esperava, passou os braços pelo meu quadril e segurou a minha bunda. Fiquei enlouquecida de raiva e dei-lhe um cascudo. Saí dali, mais uma vez, às pressas.
No meu aniversário de 10 anos, todos foram à minha casa. Num vacilo meu, enquanto eu ia deixar mais um presente que tinha ganho, Betinho me seguiu e entrou comigo no quarto.
E foi ali que descobri que o beijo não é oco como nas novelas. Meti-lhe a língua e, depois de assustar-se um pouco com minha invenção, logo senti a língua dele também.
Minha mãe me proibiu de ir à casa de Vanessa, embora ela pudesse vir à minha.
E eu e Alberto continuamos nossas aventuras amorosas, entre beijinhos ternos escondidos atrás da árvore da praça e pegadas que me deixavam envergonhada, por detrás do muro da minha casa.

O tilintar dos botões reluzentes dentro da caixinha de madeira projetava imagens na cabeça de Alexandrina. Imaginava-os costurados, um a um, no uniforme de outrem. Desde que isso começou a acontecer, a mocinha nutriu uma obsessão imoral por botões dourados.





Algumas imagens insistentes, algumas frases que ecoam na cabeça o dia inteiro, alguns personagens ilusórios ou reais que contam suas histórias. Está tudo aqui. Tente ver.