terça-feira, 10 de agosto de 2010

Le Petit Infini est sous un parapluie.


O Pequeno Infinito está parado.
O Pequeno Infinito está sob um guarda-chuva.

www.parapluiecolore.blogspot.com

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro vinho nada resta.

(Fernando Pessoa. Ficcções do Interlúdio)


Silêncio do suspiro que me cala…
Essas são as mãos cálidas que me beijam,
Esses, os lábios impetuosos que me abraçam.
Meu engano é tanto quanto meu coração bate,
Minha possibilidade é tanta quanto o meu coração pede.
Meu lugar é onde não posso nem possuo.

Silêncio dos sussurros inaudíveis…
Meu vocabulário é o teu calar que salta aos meus olhos.
Meus olhos que refletem os teus na ânsia de se virem refletidos…
Tuas marés de verde límpido e intenso,
Tuas marés revoltas, ocultas,
Claras.
Meus cabelos estão molhados.
Meus cabelos têm cheiro de mar.

Silêncio imperioso. O nosso silêncio.
A nossa troca.
Nossa distância e proximidade,
Nossa inconstância e vontade.
Nossos silêncios vociferantes,
Múltiplas vozes e somos um só.

Minha inquietude que esbarra nas tuas reticências,
Minha ousadia e tua relutância pertinaz.
Me sorris infantil e obsceno.
Me pegas terno e tenro,
Ávido e tenaz.

Silêncio… Silêncio subvertido…
Silêncio…
Melancolia pessoana, sarcasmo rodriguiano.
Meus arroubos que transgridem tua métrica,
Tua métrica democrática que diverte meu enfado.
Tu que bem sabes entrelaçar-se a mim,
Eu que bem sei dos nossos nós…
Aqui é o rés-do-chão.
Deitemo-nos nele para aliviar a coluna, o calor.
Aqui não tem gelo, mas tem gin.

Silêncio… e nossa música não existe.
Nosso caos desafina a solista e descompassa a orquestra.
Somos alguns acordes dissonantes,
Uma melodia desconstruída toda manhã às seis,
Sob o peso dos olhos insistentemente cerrados.
Nossa música é qualquer uma, é nenhuma.
Nossa música vem do rugido da gargalhada,
Do tilintar das taças e dos copos,
Do pedido para mudar de assunto,
Mas do nosso inabalável silêncio…


Silenciosamente somos,
Fazemos, desfazemos,
Descansamos, nos mexemos.
O silêncio que nos rege e que regemos com destreza.
Esconde tuas verdes marés de alvoroço sob tuas pálpebras ardilosas
Que eu espreito teus sonhos,
Que eu te espreito.
Silenciosamente…

domingo, 20 de setembro de 2009



Me angustia a vida, o que ela me traz, o que ela me tira.

Me angustia a vida porque meu tamanho é pequeno demais diante dela.

Eu sou o rés do chão.

Piso devagar para não ser engolida.

Mas piso que é para não ficar sem contato.

O medo de ser absorvida.

O medo de ficar à deriva.

O medo da vida.

De quem ela me traz, do que ela me faz.

Tenho medo do que devo fazer com o que ela fez de mim.


Passividade.

Às vezes é mais fácil achar-me passiva.

E não o sou...


Eu tento pensar-me passiva.

Eu tento a mentira.

Eu sou a mentira se assim o fizer.


Atividade.

É isso que sou.

É a parte que me cabe.

Sou a-t-i-v-i-d-a-d-e.

Sou conseqüência disso.

Sou a seqüência de enganos e alegrias.

Sofro e gozo o penar e a exultação da atividade, de mim mesma.


Não me eximo de nada.

Crio mais rugas, mas me crio excessivamente.

Me recrio.

E morro.

E nasço.

E isso me cansa.

E isso me revigora.

E isso sou eu.

Sem pausas...

domingo, 16 de novembro de 2008




Uma tela branca.
É o que nos sobra. É o que nos diz. E por trás dela, se há ou não algo que nos torne a falar, nos é apenas uma tela branca.

Não tento ver. Meus olhos são demasiado cegos e aguçados. E é no aguçar que os transformo cegos.

Só uma tela branca. Só palavras numa tela branca.
E negro é o meu olhar.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008




Tenta-se a vida.
Nunca tenta-se a morte.
Insistimos em vida.
Somos iguais nas nossas tentativas.
Somos diferentes com o que elas nos trazem.
Todo mundo quer um sono tranqüilo.
Descansemos...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008


Tua melancolia me bate à porta como um bêbado ávido para chegar em casa, violento, trôpego, de palavras enroladas e aos gritos.


Tua melancolia me soa como o soprar do vento que entra sorrateiro pela fresta da janela mal fechada, um assobio leve que toca os pêlos dos meus braços.


Tua melancolia é funda, é cheia, é rica. Mas tua melancolia é, antes, triste. É necessária. Mas é triste. É parte de ti. Mas é a parte triste. Que te faz existir feliz. Mas é triste.


Esperei o inverno chegar ao céu. Esperei a chuva cair, brutal. Mas vi o colorido dos guardas-chuva na rua.


Esperei o acorde triste da música. Esperei o lamento do violoncelo. Mas vi a expressão satisfeita da solista.


Não toques, apenas, os dissonantes. Não toques, apenas, os maiores. Toque o que deve ser tocado, o que os dedos o levarem a tocar.


Mas toques vida. A vida que caleja os teus dedos com suas cordas, que dilacera a carne como lâmina afiada. A vida que te fecha as feridas, que suaviza a tua pele. A vida melancólica. A vida flamejante.


Tua melancolia dorme no meu travesseiro, se aconchega no meu lençol. Chora baixinho à noite e acorda adormecida. Permanece. Esvaece-se. Retorna. Luto.


Tua melancolia está comigo. “É” comigo. Sou eu. Somos.

E melancólicos ou não, somos ela.


Dentro dos seus olhos a poesia é tão comum...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008


Onde estão os pés?
Onde estão as linhas, o contorno dos dedos?
Onde está a areia afundada, a vírgula impressa nela?
Não se vê pegadas.
Não se vê a trilha, o caminho tortuoso que acaba no horizonte e segue a costa.

Ressaca. O mar e sua ressaca.
A espuma apagou o chão.
A espuma acepilhou a areia.
Plano. Tudo ficou plano.
O baixo relevo nunca existira.
Agora o que se tem é imensidão.
Uma imensidão sem rastros.

E o mar paralisa os movimentos.
Não porque é belo. Não para ser contemplado.
É medo...
O mar poderoso que perverteu a certeza em grandeza incerta.
O que se percorreu? Não se vê!
Até onde desta vez?
Tolice tentar descobrir!

Desiste-se.
Não anda-se mais pela areia,
Não acompanha-se mais a costa.
Para o mar apagar?

Não.

Que agora ande-se na direção das ondas,
no caminho das águas que não marcam pisadas.
E entra-se mais,
até que submerja-se.
E aí, já não se pisa com o peso de antes.
Não se anda, porque não tomamos mais pé.

Nadar.
Nadar em busca do azul do fundo.
Sem pegadas.
Sem caminhos.

(À estória de quem está demasiado perto. À estória dos dois, que tanto me alegra escutar...)


Ela era grande. Ele tinha braços compridos.
Ela era abstração. Ele lia Nietzsche.
Ela tinha cabelos longos. Ele, mãos firmes.
Ela era frágil. Ele, cauteloso.
Ela era impulsiva. Ele, o impulso.
Ela parava no tempo. Ele era contemplativo.
Ela gostava da grama. Ele sentava-se ali.
Ela dizia o "não" e o porquê. Ele dizia: por que não?
Ela queria vencer a correnteza. Ele a puxava pelo braço.
Ela queria ver o mar. Ele a levou ao outro lado dele.
Ela via a poesia no muro sujo. Ele fazia a poesia dela.
Ela se perguntava sobre a morte. Ele lhe soprava o vento quente de dias de verão.
Ela quis verdade. Ele a beijou com olhos abertos.
Ela tentou um golpe. Ele segurou sua cintura e dançou um tango.

Ela era melancolia. Ele era bossa.
Ela fez uma pergunta. Ele lhe escreveu um poema.
Ela procurou as palavras certas. Ele a tocou da maneira certa.
Ela pensava em trabalho. Ele imaginava uma casa no campo.
Ela explicou horas a fio. Ele cantou só uma canção.
Ela era o piano desafinado. Ele era o Tom.

Ela era feita de ar.
Ele também.

Ela era e queria pouco.
Ele era e queria pouco.
Mas eles tinham, um ao outro.
E com isso, tinham muito.

Ela era feita de fogo.
Ele também.

Havia amor. Há amor.
E isso basta a eles...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A obra Cefichiana

Que me perdoe quem defende a arquitetura Cefichiana... Procurei arte nas pilastras do CFCH, nos desenhos das escadas, no piso que, ora brilha, ora pára o passo. Procurei arte nos elevadores temperamentais que sobem e descem, e param e caem e não funcionam. Procurei qualquer coisa para admirar ali, mas a pilastra muito saliente pulando para o meio da sala me impediu. E assim me desiludi. Esqueci qualquer possibilidade que houvesse digna de mudar minha impressão. Devo me contentar em existir salas de aula....

Mas me arrependi há cinco horas atrás. Conheço o CFCH diurno, expondo sua imperfeição muito claramente. Conheço o CFCH vespertino, preguiçoso e lento. Conheço o CFCH noturno e seus dentes salientes. Mas nunca estive exatamente às três horas da tarde no corredor do segundo andar. Posso ter passado a qualquer hora da tarde, mas acho que nunca às três. Hoje, eu passei...

O sol que batia na parede de combogós transformara o chão num tapete de bolinhas brilhantes. Eu não via parede, portas, murais e comecei a andar sobre os pontinhos amarelos... Atravessei todo o corredor sem-fim a passos lentos, como que para aproveitar toda aquela sensação nova. Sensações novas devem ser provadas lentamente, mesmo as desagradáveis. Só assim descobre-se o que repetir, o que esquecer.

Provei. Cheguei no final onde não existiam mais bolinhas de luz. Disfarcei para que ninguém fizesse mau juízo de mim, afinal, o que uma pretensa psicóloga - e que grande coisa isto - fazia andando sem parar, de um lado para o outro, no corredor, olhando para o chão? Tendo um surto...

Abri a bolsa, fiz de conta que esquecera alguma coisa do outro lado e voltei, ansiosa para sentir o chão reluzente e sentir minhas pupilas no frêmito de contrair e dilatar. Mas, no meio do caminho, logo depois de uma piscadela que dei, tudo evaporou. O chão estava como sempre fora, como sempre é quando sento nele toda manhã para relaxar: escuro com seus pontinhos pretos normais. Como que uma reação inicialmente inconsciente, parei para esperar que o fenômeno se repetirsse.

Nada aconteceu.

Fui embora me perguntando o que teria sido aquilo tudo. Não sei se uma alucinação da minha cabeça fantasiosa ou se realmente acontecera. E, se acontecera mesmo, duvido que se repita do jeito que aconteceu. Não era o sol brilhando nos combogós do CFCH. Era algo mais e não cabe a mim tentar, em vão, descrever exatamente.

Saí do prédio e não pensei mais em procurar arte ali.

Voltei para casa depois de mais um dia no nada dadaísta CFCH...

Voltei para casa depois de descobrir o realismo fantástico do CFCH...


segunda-feira, 30 de junho de 2008




Veia dilatada que comprime... E dilata...
Via que se esconde e que se acha.

O corpo que vive e morre tão logo.

O copo que enche e não transborda.


A atriz e sua dramaticidade.

O seu triz na sua vontade

Que desfaz os dedos invisíveis e seus laços,

Que refaz o medo a cada abraço.


Veia que comprime planos.

Eu a via.

Eu a vejo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008



Vo - la - ti - li - da - de...

O volátil hermeticamente fechado.
O volátil com rolha de vinho barato.

Eu bebo o vinho de quinta. Ressaca de quinta.
Moralismo de segunda-feira!

Os prazeres são voláteis.
Éter nos sentidos... Sentidos estéreis.

Os prazeres são voláteis.
Eu sou volátil.
Hermeticamente fechada numa garrafa...
... com rolha de vinho barato...

sábado, 24 de maio de 2008

O aniversário Della


Ela é minha personagem, meu alter-ego, minha colaboradora, minha crítica literária, minha analista não-formada, minha amiga hoje, amanhã, e depois, e depois...


Ela é a extensão da minha cabeça pensativa demais, porque ela escuta e responde com a ausência das palavras.


Ela é meu superego porque ela é SUPER!

Ela é Della, mas ela é minha também...

E isso já basta.

Parabéns, Dellosa!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

As cinzas no cinza


Não gosto de dias de verão: as cores gritam e se mostram no céu demais.
Prefiro os dias cinzentos para poder imaginar as cores que eu bem quiser.
Gosto do céu cinza porque ele sou eu.
E se a chuva cai, ela também sou eu.
E se a tempestade chega, ela sou eu.

Prefiro os dias cinzentos porque minha alma é clara e ofusca meus olhos.
Porque há cores em mim que me confundem...

Gosto do cinza porque ele me encobre e alivia o peso.
Gosto do cinza porque me escondo.
Sou cinza porque sou a covarde atrás dele.


quarta-feira, 14 de maio de 2008


O silêncio que entra pela fresta da porta faz um barulho assustador.
Prefiro o silêncio que entra pela janela aberta, que me toca sem sustos.

É por isso que minha porta não tem frestas nem espaços.
É por isso que eu escancaro minhas janelas...

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Stuck in a moment


Querida,

Eu estive pensando: eu não tenho medo de nada neste mundo. Eu já vivi tanta coisa,
que não há nada do que você possa jogar em mim que eu já não tenha ouvido. Acho que
é por isso que não consigo compor como antes. Às vezes, querida, eu só tento
encontrar uma melodia decente ou fazer uma canção que eu possa cantar em minha
própria companhia.

Não consigo parar de pensar nas coisas que você tem me demonstrado. Eu nunca te
achei uma boba, nunca. Mas, querida, olhe para si agora... Você tem que ficar em
pé, conseguir carregar seu próprio peso. Você chorar desse jeito não vai adiantar.
Essas suas lágrimas não irão a lugar algum.

Entenda, você tem que chegar a um acordo consigo mesma e não ficar presa a um
momento sem conseguir sair dele, como está acontecendo. Não cruze seus braços como
está fazendo, não ache que o tempo vai resolver tudo se você nem se move para tentar
sair desse momento que está prendendo seu corpo.

Eu pensei bem e entendi que seria impossível renunciar às cores que você me traz.
Me lembro das noites que você preenchia com fogos de artifício e que, hoje, elas
te abandonaram. Mas essa luz, que antes era trazida por sua alma, me enfeitiça até
agora, mesmo sem existir mais. Eu ouço através dos seus ouvidos e posso ver através
dos seus olhos.
 
Sabe, às vezes acho que você é uma boba mesmo, por se atormentar tanto. Eu sei que
é duro, que quase nunca o que você consegue é o bastante, ou o que é realmente
necessário. Porque o muito para você é pouco, querida. Eu sei o quanto é difícil...
 
Isso tudo eu percebi quando eu estava meio inconsciente, meio adormecido, quando
tudo na minha cabeça ficou claro e quis te escrever. Sentindo o que você é, como é
e a sua intensidade, eu descobri que a água só é morna até que se descubra o quanto
ela é profunda. Você sempre foi profundeza para mim...
 
Tentar enxergar mais de você não é um pulo do meu para o seu mundo, é uma queda
violenta, uma queda rumo ao nada absoluto. Você tem que dar a volta por cima, meu
amor. Você está paralisada num momento e não consegue sair dele...
 
Se a noite se exceder, se o dia não durar, se o nosso caminho estremecesse ao longo
de um caminho de pedras, não se exaspere, meu bem...

É apenas um momento.

E esse tempo passará...
 
                               Do sempre seu.

quinta-feira, 1 de maio de 2008


A gente, às vezes, se engana nas palavras, se excede no gesto, aperta demais o abraço, se descontrola no choro.


A gente, às vezes, transforma o amor em posse, amizade em amor, amor em ódio, ódio em alimento. A gente exagera nos sentimentos, na importância de um olhar, na demora de um beijo, no "eu te amo".


A gente, às vezes, quer no outro o que não temos, quer no outro o que também temos, e quer mais. A gente peca por excesso e pela falta. Mas sempre peca...

A gente, às vezes, não é gentil o suficiente, não é capaz o suficiente, não é bom o suficiente. A gente tenta, se esforça, insiste, racionaliza. A gente grita, teima, impõe, questiona.


A gente, às vezes, acerta quando aceita o erro ou o renega. A gente tenta perdoar a si próprio, procura piedade dentro do corpo, tenta aliviar as dores pressionando as feridas, sarando as culpas.

A gente é o que é.

Só nos resta sabermos o que, realmente, somos.

Gardênia: um exemplo a ser seguido - ou não...

(na foto, Gardênia - de escova no cabelo e temporariamente morena - entre o publicitário e o designer. Os outros dois viajavam a trabalho)

Gardênia, vulgo Deninha, estava morando na França há seis meses. Foi disposta a estudar temas sobre as representações sociais dos gêneros no cinema, como feminista que era. Mas, desde a sua chegada, não tinha conseguido se concentrar, de tão encantada com sua mais nova e doce convivência européia.

Ela era filha de um usineiro riquíssimo de Minas Gerais e dinheiro era o que não lhe faltava, assim como humildade. Estudava francês aos sábados, falava inglês e espanhol. Ruiva, de olhos claros, cabelos cacheados, com um sorriso encantador e uma simpatia invejável, era a mulher que os franceses branquelos e frios sempre sonharam. Andava meio perdida, se adaptando à nova e tão esperada fase da sua vida.

As novidades do lugar e seus pretendentes norteavam sua atenção para todas as coisas, menos para a universidade. Porém, os estudos ainda estavam em seus planos. Era só uma questão de tempo. Gardênia sempre foi muito estudiosa, mas tinha acessos de fuga temporários. Dos seus pretendentes, pode-se contar quatro: um militar, um médico, um publicitário e um designer bastante conhecido.

O médico, típico galã de cinema solitário, com cinco anos a mais do que ela e com uma inteligência fora do comum, a atraía bastante. Eles conversavam sobre lançamentos de livros, filmes e arte em geral. Ah, ele adorava Martin Scorsese, como ela. Conheceram-se no aeroporto, quando Deninha, que morria de medo de avião, quase desmaiou depois do desembarque (ela costumava ter reações tardias). Não sabia ela que ganharia um fã - e ele, uma razão pra viver - depois do seu atendimento.

O publicitário era quatro anos mais novo, porém, possuía uma lábia que transpassava as dificuldades lingüísticas de Deninha. Falava de filosofia e viajava nos sonhos e idéias da menina como ninguém jamais o tinha feito. Isso a encantava profundamente. Foi o suficiente para colocá-lo em posição privilegiada na fila.

Já o militar, usava uma farda que, apesar de não ser da marinha, dava asas à imaginação e aos delírios da menina. Todo dia sonhava desabotoando os botões da tão famosa farda. Ele tinha um charme comparado com o de Richard Gere... Hummm, ok... Foi demais... Mas os botões brilhavam como os olhinhos da moçoila quando o avistavam. Ele era fantástico.

E, por fim, um famoso designer francês com um senso de humor que a fazia esquecer de todos os outros concorrentes. Ela adorava sua companhia.

Todos rendidos aos encantos da pequena brasileirinha. Que situação! Ela nunca tinha se deparado com tamanho assédio! Mas, Gardênia, apesar de sua eloqüência verbal e ótima desenvoltura intelectual, era uma menina muito tímida e recatada. Vinda de uma família religiosa levou consigo princípios evangélicos para o outro lado do Atlântico. Filha única, mimada e super-protegida pela sua família, nunca tinha tido tanta liberdade. Agora, longe de todas as expectativas e pressões de seus familiares e amigos, era a hora certa de deixar seu id sair do fundo do bauzinho, o qual havia reprimido por 23 anos.

Na terra de Beauvoir, sua musa inspiradora, Deninha começou a conhecer o mundo de forma diferente. Resolveu ser, ser de verdade, quem ela sempre quis. Deixou as aparências e os princípios religiosos de lado, que na verdade eram mais da sua família do que dela própria, e começou ouvir sua própria consciência – ou a ausência dela. Pronto... Foi suficiente para deixar emergir a Gardênia perversa, - no sentido freudiano - egoísta e altamente sujeita da suas vontades mais genuínas... Começou a viver, ou pelo menos, ter essa sensação.

Ah, e ela tornou-se amante da clandestinidade... O que torna a estória muito mais interessante do que aparenta.

Por Nathália Della Santa,
Doutora em Perversão e Mecanismos Clandestinos de Sexualidade.
PhD em Sedução Psicológica de Baixo Calão
.


terça-feira, 29 de abril de 2008

Delírios eróticos de um púbere


Me chamo Diógenes. Meu melhor amigo é o Cylândio. Moramos no mesmo bairro já faz uns dez anos. Quando cheguei aqui, Cylândio já vivia numa casa simples e de muro baixo. Eu me mudei para uma casa amarela - amarela mesmo - que era rodeada por uma cerquinha de madeira… Amarela.


A mãe do meu grande amigo é linda. Deve ter uns trinta anos, mais ou menos. Já ouvi falar num tal de Balzac, um escritor famoso aí, que fala de mulher de trinta anos. Vou pesquisar na internet para ver se descubro alguma coisa sobre o que esse cara fala porque paciência, paciência mesmo, de ler livro eu não tenho. O pai do meu amigo, e marido da sua linda mãe, é representante de vendas e viaja muito.


Resolvi escrever hoje por um motivo muito sério, um fato que aconteceu comigo há uns dias atrás. Na verdade, eu estou bem orgulhoso do que aconteceu e, ao mesmo tempo, um pouco confuso.


Fui procurar Cylândio na casa dele, terça-feira passada de manhã. Entrei pelo portãozinho que ficava destrancado sempre. Gritei o nome dele uma vez e escutei uma resposta vinda lá dos fundos da casa.


- Entra, Diógenes.


Eu escutava um barulho de água e fui seguindo até lá, no quintal. Quando cheguei, vi Dona Gerlaine no tanque, lavando roupas. Ela estava com um shortinho daqueles que só se usa em casa de tão pequeno e depravado e uma camiseta branca. Aqueles cabelos cacheados curtinhos e saltitantes e sua pele angelical de tão branca contrastavam perfeitamente bem com aquela cena doméstica. Fiquei ali, parado, olhando para Dona Gerlaine, maravilhado. Ver os músculos do braço dela contraíndo-se no vaivém da roupa esfregada contra o tanque me excitou, um tipo de excitação que só tinha sentido quando, uma vez, vi uma mulher pelada na revista do Mago, um amigo nosso, e ela nem era tão bonita assim.Ela não tirou os olhos da roupa e começou a falar:


- Oi, Diógenes. Se estiver procurando o Cylândio, ele não está. Foi para a casa da avó. Só volta de noite.


Agradeci, mas eu não consegui me mover para ir embora. Me mantive ali, apreciando o espetáculo de pernas bem torneadas e fortes que eram ainda mais atrativas quando Dona Gerlaine ficava na ponta dos pés para um apoio melhor na labuta da lavagem das roupas. Ela era um pouco baixinha para a altura o tanque. E esse era um elemento importantíssimo na composição daquela cena.


Percebendo a minha inquietação dentro da minha imobilidade momentânea, Dona Gerlaine parou o movimento das mãos, olhou para mim e disse:


- Bem, Diógenes, só porque o Cylândio não está, não significa que você não possa me fazer um pouco de companhia...


Disse isso com um olhar que, até então, eu desconhecia de Dona Gerlaine. Na hora, sob o impacto de um medo repentino e estranho, inventei que precisava fazer umas coisas em casa. Mas, logo repensei e disse que isso não era urgente, já que ela estava sozinha e podia precisar de alguma ajuda. Ela sorriu enquanto continuava no tanque. Me pediu para pregar um varal que tinha caído, já que precisaria dele quando terminasse de lavar as roupas.


Foi na hora de pendurar as roupas no varal que não contive minha ereção. A camisa branca (e transparente) da Dona Gerlaine estava encharcada de água e, quando ela levantava os braços para alcançar o varal - bendito seja ele – eu conseguia ver, num instante de segundo, aqueles peitos incríveis. Disfarçava com as mãos o efeito que aquela visão causava ao que estava sob meu calção folgado e fino, daqueles que os jogadores usam numa partida de futebol.


Ela já havia percebido, tenho certeza, e como se não bastasse, me pediu uma “mãozinha” para alcançar o varal.


- Você colocou os pregos muito altos, Dizinho. Venha aqui me levantar para eu alcançar melhor.


Bandida! Por que ela não me pediu um banco ou que eu mesmo fizesse o serviço? Só sei que, bandida ou não, fiz o que me pediu sem pestanejar. Segurei na sua cintura fina, por trás, e a suspendi. Depois de um tempo fazendo isso, comecei a apertá-la contra o meu corpo e laçar sua cintura com o braço todo, já que o apoio era melhor – ou, pelo menos, essa foi minha grande desculpa.


Depois de acabada a grande odisséia no quintal, ela disse que me faria um suco. Fomos até a cozinha e comecei a ajudar Dona Gerlaine a cortar um abacaxi. Eu, muito inexperiente nessa tarefa – eu nunca faço nada em casa porque tenho uma mãe que me faz todas as vontades – acabei cortando meu dedo médio, que sangrava muito. Na mesma hora, ela me pegou pelo braço e me levou ao quarto para fazer um curativo.


- Sente aí, Dizinho - disse ela apontando para a cama de casal.


Sentei enquanto ela procurava a caixinha de remédios. Depois, agachou-se na minha frente e pegou minha mão. Já sangrava menos o meu corte quando ela pegou meu dedo e levou-o junto à sua boca.


- Deixe-me dar um beijinho para sarar...


Encostou os lábios no meu dedo bem ternamente, o que me causou algumas reações fisiológicas. Quando percebi, ela passava a língua nele enquanto me olhava fixamente. Fiquei anestesiado por completo quando todo o meu dedo médio estava dentro da sua boca molhada. Só eu sei que sensação foi aquela. Arregalei os olhos e ela me deixou pegar nos seus peitos. Revirei os olhos por uns longos segundos até que ela quebrou o silêncio:


- Tá bom, menino. Você já está melhor. Agora, vá pra casa.


Levantou-se como se nada tivesse acontecido e foi para a sala, assistir televisão. Passei por ela sem saber o que falar e escutei:


- Quando Cylândio chegar, digo que você procurou por ele.

- Sim, senhora. Obrigado.


Naquela noite, tive os sonhos mais incríveis que uma pessoa pode ter.


Menos Cylândio...



(agradecimento especial à Raquel, pela contribuição altamente genial com a música "La madre de Jose" que, diga-se de passagem, foi feita para esse conto...) Pretensiosa, não?

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O menino da casa ao lado


Conheci Alberto quando eu tinha 9 anos e ele 7. Ele morava na casa ao lado e tinha o olhar mais safado que eu já vira. Agora que me dou conta disso... Alberto era a prova viva dos pressupostos freudianos sobre sexualidade infantil.

Eu vivia só com minha mãe e avó numa casa espaçosa o suficiente para nós três. Alberto morava com os pais e era o caçula dos três filhos do casal. Vanessa era a do meio e tinha minha idade. Logo que eu me mudei para o bairro, ela tratou logo de me fazer sua amiga. Comecei a freqüentar a casa dos Lima e não era raridade eu almoçar por lá. Brincávamos muito com o castelo da Barbie que ela tinha no quarto. Só havia um problema: Vanessa dividia o cômodo com o caçula, já que o irmão mais velho, de 15 anos, exigia um quarto só para ele. Essa situação me obrigou a conviver com Betinho que, vez por outra, participava das nossas brincadeiras.

Eu e Vanessa tínhamos uma relação tranqüila, sem muitas brigas, o que é incomum quando se trata de duas meninas na nossa idade. Em compensação, Betinho me tirava do sério muito facilmente. Ele tinha alguma coisa que me incomodava. Ninguém entendia o porquê. Ele era uma criança calma, educada e nunca atrapalhou a mim e Vanessa. Fazia todas as nossas vontades e colaborava com tudo o que pedíamos. Não falava muito, mas olhava demais...

Um dia, estávamos eu e Vanessa brincando de médico com uma boneca. Betinho entrou no quarto e perguntou se tinha algum problema dele ser o paciente. Minha amiga adorou a idéia e já mandava ele tirar a camisa para o exame. Eu disse que tudo bem. Betinho deitou no tapetinho do chão e Vanessa colocava um fone de ouvido quebrado para escutar os batimentos cardíacos do paciente, depois, pegou um lápis e pôs debaixo do braço do menino franzino para medir sua temperatura:

- Senhor Boris, o senhor está com uma febre muito alta. O que o senhor está sentindo?

- Estou com dor de amor, doutora.

Enrubesci. De alguma forma, eu sentia que era para mim aquela frase. Tive a certeza quando olhei de soslaio e ele me encarava, deitado no chão. Vanessa levantou-se:

- Enfermeira, vou buscar os instrumentos para operar o paciente. Enquanto isso, pegue esse paninho com água e passe no senhor Boris para a febre baixar.

A porta do quarto fechou-se e lá estava eu, sozinha com o “paciente”. Ele fixava o olhar em mim e não falava nada. Peguei os paninhos e mergulhei na água. Me ajoelhei e comecei a passar no seu peito nu. Meu coração palpitava estranhamente. De repente, ele segurou minha mão e continuou me olhando. Quando olhei para Betinho, ele levantou o tronco e chegou bem perto do meu rosto. A porta bateu. Era Vanessa que, não percebendo nada, trazia uma régua e um lençol.

- Pronto, enfermeira. Vamos abrir o paciente para vermos o que ele tem.

Só tive o impulso de me levantar e sair da casa dos Lima o mais rápido que podia. Nesse dia, fiquei ensaiando na frente do espelho o beijo mais incrível que eu poderia imaginar. Tentava me lembrar dos beijos do cinema e das novelas. À noite, não consegui dormir. Eu devia estar maluca de pensar em beijar um menino de sete anos. Era o fim!

Depois desse dia do médico, continuei a freqüentar a casa dos Lima, mas nunca mais as coisas foram as mesmas. Alberto aproveitava todos os segundos em que ficávamos sozinhos. Certa vez, quando Vanessa estava doente e fui visitá-la, ele me chamou no final do corredor que dava para o quarto deles. Fui, receosa, mas fui. Betinho me puxou para junto dele e, quando menos esperava, passou os braços pelo meu quadril e segurou a minha bunda. Fiquei enlouquecida de raiva e dei-lhe um cascudo. Saí dali, mais uma vez, às pressas.

Passei mais de uma semana sem ir à casa de Vanessa.

No meu aniversário de 10 anos, todos foram à minha casa. Num vacilo meu, enquanto eu ia deixar mais um presente que tinha ganho, Betinho me seguiu e entrou comigo no quarto.

E foi ali que descobri que o beijo não é oco como nas novelas. Meti-lhe a língua e, depois de assustar-se um pouco com minha invenção, logo senti a língua dele também.

Abriram a porta.

- Lucinha!!! O que é isso?!?!?

Nunca vi Betinho correndo tanto como naquele dia.

Minha mãe me proibiu de ir à casa de Vanessa, embora ela pudesse vir à minha.

E eu e Alberto continuamos nossas aventuras amorosas, entre beijinhos ternos escondidos atrás da árvore da praça e pegadas que me deixavam envergonhada, por detrás do muro da minha casa.


quinta-feira, 17 de abril de 2008

Os botões reluzentes.


O tilintar dos botões reluzentes dentro da caixinha de madeira projetava imagens na cabeça de Alexandrina. Imaginava-os costurados, um a um, no uniforme de outrem. Desde que isso começou a acontecer, a mocinha nutriu uma obsessão imoral por botões dourados.

Alexandrina veio morar na capital quando completou 16 anos, tinha origem interiorana e vinha de uma família muito humilde. Quando ela ainda morava no interior, era conhecida por participar de obras sociais e ser muito dedicada à família. Quando completou doze anos, já alfabetizava os pequeninos da cidade. Adorava crianças. Era uma menina doce, tranqüila e nunca tinha tido um namorado – sequer sabia o que era beijar um garoto. Sua irmã, Gardênia, era uma depravada e a sua fama de “avançadinha” já corria pela vizinhança. Isso envergonhava muito Alexandrina, que zelava pela “moral e pelos bons costumes”. Gardênia nem ligava...

Quando se mudou para a capital, ficou instalada na casa de uma tia por consideração. Passados dois anos, a moça continuou imaculada e não se corrompeu pelos “maus hábitos” da cidade grande. Logo se envolveu numa ONG para crianças abandonadas. Mas foi exatamente aos 18 anos, que a vida de Alexandrina mudou completamente.

No desfile de 7 de Setembro, a moça resolveu fazer companhia à tia e ir assistir à parada. Foi lá, enquanto aqueles homens fardados e de postura altiva passavam, que Alexandrina viu, pela primeira vez, Cidrido Rodriguez, um costa-riquenho radicado no Brasil há três anos. Ele, cheio de pompas, vestido com seu traje impecavelmente branco e bem passado e um quepe no lugar certo, fez a menina simples do interior ficar completamente bestificada. Cidrido não era um rapaz muito bonito, mas, naquelas circunstâncias, se apresentava como um lorde.

Os botões dourados do seu uniforme de gala brilhavam de acordo com a posição em que o sol batia neles. Esses lapsos de luz que ofuscavam Alexandrina – como quem pega um espelho e aponta para os raios do sol – foram os grandes responsáveis pela deflagração dos sentimentos dela.

O tempo passou e toda a vida do rapaz foi descoberta por Alexandrina que, agora, só tinha tempo para pensar nele. Parou os estudos, o trabalho na ONG e ficou completamente aérea. Depois de perseguir Cidrido todos os dias, - sem que ele percebesse – conversar com a vizinhança e se utilizar de meios mais ilícitos (como fazer uma cópia da chave de sua casa e invadi-la enquanto estivesse trabalhando), Alexandrina sabia quase tudo sobre o rapaz.

Cidrido era da Marinha, tinha 25 anos de idade, morava sozinho e criava dois bichos não muito comuns: uma caranguejeira e uma jararaca. Lógico que outros detalhes foram descobertos, mas não vêm ao caso agora.

Alexandrina passou cerca de um ano nessa saga e nutrindo a paixão obsessiva pelo milica. Não tinha coragem de se apresentar ao rapaz e esperava uma providência divina para que isso acontecesse o mais rápido possível.

Até que, um dia, ao espiar, escondida na rua, a saída de casa de manhãzinha do seu amado, percebeu que não estava fardado e carregava uma mala em cada mão. O coração de Alexandrina bateu mais rápido: será que ele ia embora? Como ela viveria sem ele? Então, logo atrás de Cidrido, saía da casa dele um homem alto, forte e bocejando. Apressou o passo, pegou uma das malas que o milica levava, e deram-se as mãos. Andaram assim até o ponto de táxi mais próximo e desapareceram das vistas da moçoila.

Alexandrina entrou em pânico. Não chorou. Não falou mais.

Voltou para o seu interior e nunca mais saiu do seu estado de choque.

Ela agora colecionava botões reluzentes numa caixinha de madeira, que abria e fechava o dia inteiro.

É... E Alexandrina acreditava que o milica só criava a jararaca...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Temente a Deus... e a Ulisses.



Ulisses era muito conhecido na cidadezinha de interior de Santinha-do-Pau-Oco. Sua altura mediana não era o a responsável por sua fama de galã, nem seu físico indefinido. O que chamava mesmo a atenção das moças simples da cidade eram os maliciosos olhos negros de Ulisses e um bigode fininho, bem brega, no jeitinho mexicano-de-subúrbio de ser.

Não quero me deter, aqui, na análise do nível de exigência das mulheres de Santinha-do-Pau-Oco, até porque,hoje, parafraseando uma pessoa de minha convivência, "tudo é relativo". Mas, vale lembrar que as moças da cidade já nasciam pensando em casamento e iam à missa somente para pedir a Deus que lhes arranje um bom partido, de posses e, de preferência, se não for pedir demais, um homem bem aparentado.
Pelo fato de Santinha-do-Pau-Oco ter a maioria da população masculina trabalhando nas lavoras do Coronel Rendrix (uma homenagem ao Hendrix original), - resumindo, ganhando pouquíssimo, vestidos como mendigos sem estilo e com um português deplorável- Ulisses, com seu fusca branco, roupas despojadas vindas da cidade grande, frases de galanteio decoradas e cabelos programadamente desgrenhados, fazia um sucesso estrondoso com o público feminino de lá.

Marianinha era noviça e tinha 16 anos, quinze a menos que Ulisses. Sua mãe, uma beata que tinha sido abandonada pelo pai da menina quando esta tinha acabado de nascer, planejava para a filha uma carreira religiosa rumo à beatificação pelo Papa. Marianinha ia bem com suas obrigações religiosas e seu desejo de satisfazer o desejo da mãe - ou a falta de opção para escolher outro caminho - era grande. Até ela conhecer Ulisses...


O viu, uma vez, durante a caminhada matinal que fazia com suas colegas noviças. Essas, sim - as outras noviças - eram o que se pode chamar de taradas. Mas o aparecimento do rapaz de bigodinhos finos fez com que Marianinha tivesse sonhos e pensamentos pecaminosos. Ulisses, como bom malandro, havia reparado na noviça magrinha e pequena com tez de marfim, olhos castanhos e boca rosa. Essa seria sua mais nova investida.

Até que, um dia, numa tardezinha escura e chuvosa, Marianinha precisou sair para comprar alguns mantimentos que as freiras haviam pedido. Com um guarda-chuva aberto, lá estava a menina rumo ao seu destino. Enquanto ela andava pela rua vazia de gente, Ulisses preparava seu bote certeiro assim que ela pegasse a ruazinha de terra batida. E foi lá mesmo que o galã mexicano apertou Marianinha contra o seu corpo e lhe deu o primeiro - e fatal - beijo. A noviça não resistiu e, depois de segundos sem ar, enfartou ali mesmo, nos braços do rapaz. Assustado e sem saber o que fazer, Ulisses deixou a noviça, caída no chão, debaixo da chuva forte e do céu cinza, e desapareceu de Santinha-do-Pau-Oco.

No começo da noite foi que descobriram o corpo da menina morta, com o hábito todo sujo de lama e o guarda-chuva aberto.

"Pobrezinha", todos pensaram, era "fraca de saúde" e Deus a tinha chamado antes do tempo porque precisava de alguém como Marianinha para sua secretária.

-Ela escutou o chamado de Deus! Veja como morreu feliz, sorrindo!

Não sabiam eles da natureza do sorriso...

terça-feira, 15 de abril de 2008

O culpado


O passaporte foi o culpado por tudo. Ela ainda não tinha chegado a essa conclusão, pelo menos não naquele dia. Isso, porque tinha os olhos encobertos pelas mãos daquele outro.

Alguém já havia dito que coisas iriam acontecer. Ela, descrente, - ou apenas dissimulando - sorria e mudava logo de assunto. Falava do dono das mãos que lhe tapavam os olhos.

O passaporte foi o grandessíssimo culpado por tudo, porque lá estava o nome dela impresso com letras insistentes: Nancy Deneuve Satrapi. Os olhos de lince do rapaz ao lado foram seduzidos pelo objeto e, depois de lido o necessário, utilizou-se de meios "lícitos" para a descoberta da identidade daquela moça séria, vestida com uma elegância discreta e de sobrenome italiano, digo, francês.


Resolver burocracias, definitivamente, não era o esporte preferido de Nancy. Acho que o de ninguém, na verdade, embora valha ressaltar que, no caso dela, a questão não era "não gostar", era sentir ojeriza. Só fez isso naquela ocasião porque uma força maior chamada "cruzeiro pelas Ilhas Gregas" necessitava dessa resolução. E lá estava ela, impaciente , esperando sua vez de ser atendida. Enquanto ela xingava, mentalmente, os burocratas, o rapaz transformava o próprio tédio em uma observação interessante e minunciosa da moçoila.


Claro que Nancy percebera a presença dele. Na verdade, desde que ela havia entrado na saleta da imigração. Ele era um "belo exemplar da espécime", foi o que disse um dia.
Depois de resolvida a papelada, ela foi-se embora. Tentou concentrar-se no trânsito, na tabela que fazia no computador, na história que uma amiga contava, animada. Não conseguiu. Lembrava do rapaz do aeroporto. Só quando "aquele das mãos que lhe tapavam os olhos" chegou, foi que Nancy pareceu esquecer o ocorrido. Ela consegue dissimular muito bem...

Agora, Nancy me envia notícias e me diz: "o passaporte foi o culpado por tudo".


Ela não precisou dizer mais nada. Eu sabia de sua origem Machadiana. Ela via pelas frestas que os dedos - do "dono da mão"- deixavam. Ela enxergou tudo e mais um pouco.

Não negas o nome, Capitu.

segunda-feira, 14 de abril de 2008


Existem travas que impedem a fluidez dos pensamentos. Disso, não restam dúvidas. O meu único questionamento a respeito é até quando essas travas continuarão agindo ao seu bel-prazer. Hoje, escrevo aqui por questão de exercício, como um viciado por academia que deve manter seu físico musculoso levantando pesos e mais pesos, automaticamente.

Me dá prazer, sim, em escrever o que quer que seja, mas essa idéia de blog me impede de escrever toda e qualquer coisa. Se eu tivesse o prestígio de uma Sylvia Plath, me daria ao luxo de escrever um diário com as palavras que quisesse, com os temas que quisesse, sem me preocupar se seria ou não interessante a quem está lendo porque, no final das contas, seria considerado interessante.


Penso em pagar um terapeuta só para que ele leia meus escritos. Acho que não pediria uma análise deles. Era só para sentir-me acompanhada, de alguma forma, por alguém. Depois, se meu caso fosse tão interessante como o de uma Anaïs Nin, ele publicaria minha obra postumamente. Então, tenho que achar alguém mais novo que eu - para que morra depois- e que já seja terapeuta...

É... Devo esperar mais uns anos.


Enquanto isso, forço minha cabeça para procurar coisas que interessem, em algum aspecto, aos que lêem. O resto - a parte mais obscura e não-comercial, pela falta de itens que agradem ao público - divido entre os mais próximos, entre os que estão mais próximos a mim. Mas escrevo à mão, que é para sentir a dor nas articulações dos meus dedos enquanto aperto a caneta contra o papel.

Um pequeno infinito que traz dentro de si mais infinitos...

sexta-feira, 28 de março de 2008


Há dias em que não consigo contar estórias alheias, porque estou demasiado sorvida pelo meu mundo. Há dias em que escrever sobre banalidades me relaxa a cabeça, me faz tirar os dois pés da realidade. Mas, há dias em que meu egoísmo não me deixa verter pensamento nenhum a qualquer que seja o personagem, que não eu; a nenhum cenário, que não o que eu esteja envolvida; a nenhum sentimento, que não aquele que sinto profundissimamente.

Teria coisas a dizer sobre imagens que me percorrem as idéias. Imagens simples e lindas, que passam despercebidas por muitos. Mas, apesar de tê-las agora em mente, não consigo fazê-las senhoras do que escrevo. O que teima em me escorrer pelos olhos e sentidos são as coisas que me fazem sentir colérica, triste, amarga.

É duro ver-se amarga no espelho porque a vida nos endureceu. É duro ver que o ciclo continua quando você implora por um tempo parada, para tentar sair da tontura que se está o tempo todo. É duro ficar séria quando a piada mais inteligente acabou de ser proferida.


Há o cansaço de tudo. O cansaço de agüentar dias inférteis, o cansaço que sobrepuja a vontade de ser sempre outro. Ser sempre outro é necessário, mas cansa. Cansa, ver a nossa tentativa humana de parecermos menos idiotas, mais cultos, mais certos. Cansa, saber de arte e discutir arte. Cansa, escutar teorias cuspidas, frases copiadas e críticas clichês. É muito mais cansativo criticar que ser criticado. Muito mais cansativo copiar que ser copiado. É muito cansativo.
A gente se cansa demais em discussões estéreis e de palavras difíceis.

A gente sofre demais por coisas bobas. A gente sorri demais... ou chora demais... A gente interpreta muito mal e achamos que somos os melhores protagonistas de um bom filme, quando, no máximo, somos figurantes mal vestidos de uma vida que não nos pertence.


Somos egoístas por termos um umbigo presunçoso demais. Somos alienados por estarmos sempre satisfeitos com o que somos ou o que sabemos.

Saber disso, faz com que o fardo de ser humana, de me sentir humana, me pese sobre as costas. E me coíba de quaisquer outras frases ou temas, que não a respeito desse sentimento ignóbil de não ter como escapar à regra.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Sem ponteiros


Chego, todos os dias, à conclusão de que preciso de mais tempo. Preciso de mais tempo não é para cumprir todas as minhas responsabilidades. O tempo que tenho, geralmente, dá para fazer isso . Mas, só isso...

Mais horas no dia para ler o que se planeja há tanto tempo, para poder sentir uma música ao invés de somente escutá-la. Mais horas para escrever bobagens, para escrever um livro, para escrever cartas de amor e revolta, para poder dizer que ama e que odeia sem frases feitas e rápidas. Mais horas, muitas horas a mais...

Preciso viver, pelo menos, cem anos a mais do que esperam que eu viva, e só deixar meu corpo sucumbir à velhice depois que eu tenha conseguido fazer o que precisava ser feito. Não posso pular meus planos, minhas vontades. Não posso deixar que cortem meus momentos... Eu preciso vivê-los até que se esgotem em mim todos os motivos. Tenho uma tendência inegável a me sentir obsoleta e profundamente frustrada quando não sou fiel aos meus quereres, quando sou impossibilitada de escolher, de errar, de tentar.

Preciso de mais tempo para amadurecer até o último fio de cabelo. Para me sentir esgotada com a vida que levo, mas, satisfeita. Preciso de mais tempo para conhecer as pessoas, para elogiá-las, para criticá-las, para amá-las ou aprender a desamá-las.


Preciso de mais tempo para assistir três vezes o mesmo filme, para olhá-lo de três formas diferentes. Para arrumar motivos para torcer pelo mocinho e pelo vilão. Para encontrar no coadjuvante a história principal.


Preciso de mais tempo para ler, ouvir, falar, sair, dormir, sonhar, abraçar, beijar, bater, imaginar, ver, lembrar, defender, atacar, teimar.

Preciso de mais tempo para amar, odiar, sentir medo, saudade e compaixão, vingar, chorar, sorrir, calar, tocar.


Preciso de mais tempo para não precisar escolher... E fazer tudo!
Preciso de mais tempo para poder SER...

Preciso SER.

segunda-feira, 24 de março de 2008

O homem da casinha distante


Era um homem bruto, estereotipando, daquele tipo que se acha em um interior distante da capital cuidando de 'coisas da terra' e morando em uma casinha sem água encanada. Soa um pouco grosseira essa referência, mas, pelo menos, não me custa usar muito a cabeça na descrição do tal homem, nem forçar demais a imaginação de quem lê. Por questões práticas - a fim de vencer a preguiça dos leitores que costumam passar por aqui - é melhor começar falando do 'bruto' da maneira que comecei, mesmo. Embora eu deva admitir que, 'morando numa casinha sem água encanada' pode ter sido um exagero.

Enfim, não sei nada desse homem, exceto as impressões e suposições que criei durante e depois que o vi. Eu passei por ele como uma mulher deficiente de suas faculdades mentais e sanidade fugindo da camisa de força e da enfermeira gordinha pronta para injetar o líquido da seringa - essa é a pressa com que todo mundo anda hoje em dia pelas ruas da cidade, seja para não ser assaltado em qualquer esquina, como para não ser visto por aquela tia desagradável, que faz da sua vida a fofoca mais quente da família. Então, eu passei...

Foi, então, que vi na beira da estrada que corta a capital, um caminhão parado. Pensei logo que haveria de estar quebrado, ou rendido por um quadrilha assassina, ou abandonado ali depois do roubo, ou no meio de uma transação ilícita. Pensei nas possibilidades mais possíveis: nas tragédias mais trágicas...

Olhei a placa: algum interior do Estado do qual não me recordo o nome.
A porta do caminhão entreaberta e o alerta ligado. Só se via caminhão, sua frase 'filosófica' e algumas caixas, parecia-me, com verduras. Talvez o motorista tivesse parado por livre e espontânea vontade - e não sob a mira de três-oitões de bandidos - para urinar por perto. Homem tem essa mania de aproveitar tal facilidade anatômica para fazer, de qualquer lugar, o seu banheiro particular. Não se enxerga, ao certo, a linha que divisa esse ato quanto a ser pura e genuína necessidade fisiológica ou um impulso um tanto quanto narcísico. Fora a questão cultural - brasileira, mais especificamente - onde 'macho mija em pé e na hora que quer'. Essa história de 'educação' é coisa de boiola. Bem, mas isso não vem ao caso agora.

A questão é: procurei o meliante que, provavelmente, estaria urinando na beira da estrada. Estava pronta para direcionar bons xingamentos mentais a ele, até que o encontrei, parado, em pé, e com os braços esticados, atrás do caminhão.

Mas o que ele segurava eram flores do campo, que colhia, uma a uma, e ia formando um buquê rústico e cuidadosamente arrumado.
As mãos ásperas do 'homem bruto' trabalhavam na escolha das flores e na junção de todas as cores que lhe pareciam harmônicas.

O homem do interior distante havia parado seu caminhão, durante a dura viagem de trabalho, para colher as flores mais singelas da estrada. Ele as colheu sabendo que, talvez, nem resistissem, bonitas como estavam, à viagem de volta para casa... Até que chegassem aos olhos da futura dona do buquê. Como chegariam, pouco importava. O que lhe importava era aquele momento, que ele escolheu para dedicar seus pensamentos a alguém que lhe fazia alguma falta.

E eu passei... Muda, envergonhada e sem saber o que pensar.
Até que, lembrei... Deveria passar como uma louca que foge da enfermeira gordinha- não sei se por necessidade, ou por fuga.

E pensar que tudo isso não durou, sequer, quatro segundos...